terça-feira, 28 de setembro de 2010

Quotidiano da vida selvagem na Faia Brava

Os necrófagos chegam cedo. Pelas 7h30 chega o Milhafre-preto e o Britango (como regionalmente se designa o Abutre do Egipto). Atento e desconfiado como sempre, o Britango, afastado, aguarda e observa o milhafre que, mais descontraidamente, vai comendo os ossos do talho que disponibilizámos para este dia. Alguns minutos depois, aproxima-se cautelosamente, puxa para si um osso e afasta-se uns metros para comer tranquilamente. 
2 grifos aparecem muito mais tarde. Vão observando do cimo da rocha, esperando. Talvez desconfiem e nos consigam perceber por trás da rede camuflada do abrigo. Tememos o seu olhar penetrante e aguçado que brilha com a luz ténue da manhã.
Mas o ar aquece. Os milhafres, agora 3, devoram o que podem, o mais rapidamente possível, antes que os grifos se decidam a disputar o alimento. Os Britangos, entretanto 2, vão comendo e levando pedaços de carne no bico, levantando voo e afastando-se, certamente em direcção do ninho, onde 2 a 3 crias esfomeadas os aguardam ansiosamente. 

Por fim, pelas 11h, um dos grifos, provavelmente o mais esfomeado, toma a iniciativa e, pulando e voando por cima das rochas, aproxima-se do monte de ossos de asas abertas, majestoso nos seus 2,60m de envergadura. 
Então, mais cautelosamente, prova um pedaço de carne. Logo depois, como se este comportamento indicasse um parecer favorável, chega um 2º grifo, seguido de um 3º e um 4º, um 5º, até que perdemos a conta quando nos embrenhamos a disparar as máquinas fotográficas em rajadas de fotos quase ininterruptas. A confusão instala-se. Os milhafres e os britangos afastam-se para a periferia da arena e aguardam enquanto os grifos se degladiam pelo alimento. O caos reina. Chegam a ser cerca de 30 a 40 grifos em simultâneo. Alguns arrastam ossos para longe da confusão para um repasto tranquilo mas logo são perturbados por outros indivíduos esfomeados e dispostos a saquear.
Os milhafres resolvem não ficar a ver e fazem voos rasantes sobre o grupo, roubando algum osso ou pedaço de carne mais “desprotegido”. Os britangos “passeiam”, contornando a confusão e vão petiscando sempre que podem.
Por vezes, os grifos entram em disputas e tornam-se mais agressivos, sibilando, abrindo as asas e o bico e esticando o pescoço comprido na direcção de um concorrente. Chegam mesmo a empoleirar-se uns nos outros, entrando num corpo-a-corpo aparatoso de asas e garras, mas simplesmente intimidatório. Nesta luta pela comida, são os mais velhos e experientes ou os mais esfomeados que estabelecem a hierarquia à refeição. Os mais jovens ou os menos esfomeados terão que esperar pela sua vez.
Ao fim de 30 minutos de intensa actividade, quando já não há o que comer, começam os grifos a abandonar o terreno e vão-se afastando nos céus. Alguns mais teimosos, ou os que esperaram pela vez, vão rapando os restos mas, pouco a pouco também se afastam. Os britangos também já não se vêem.
Finalmente, conseguimos respirar e descansar as mãos e as máquinas, agora com muitas centenas de imagens armazenadas, de um dos mais intensos comportamentos da vida animal da Reserva da Faia Brava. 

Esta descrição e as imagens representam uma típica sessão fotográfica no Abrigo Fotográfico da Reserva da Faia Brava, no seu 1º ano de funcionamento.  
Certamente, a não perder!