terça-feira, 27 de março de 2012

A situação actual das aves necrófagas - comunicado

Na sequência da emissão de uma reportagem da RTP (Jornal da Tarde, Abutres do Tejo e do Douro passam fome, do dia 25 de Março de 2012) sobre a situação das aves necrófagas, a Associação Transumância e Natureza (ATN) vem por este meio apresentar alguns esclarecimentos sobre esta matéria.


O contexto da reportagem

A Associação Transumância e Natureza falava com os jornalistas não da seca, mas do efeito negativo que a legislação europeia tem tido nestas populações, já que a proibição de abandono de carcaças de animais domésticos no terreno faz com que as populações de aves necrófagas tenham maior dificuldade em se alimentar. Na região onde opera a ATN (ZPE vale do Côa), no entanto, verificamos que muitas vezes a legislação não é cumprida, já que há muitos animais de morrem em parte incerta, ficando de facto no terreno e não havendo lugar à recolha das carcaças.

A legislação foi entretanto alterada, permitindo aos países que possuem populações de aves necrófagas conservar estas aves, permitindo aos produtores de gado a deposição/abandono de carcaças no campo. No entanto, espera-se ainda uma decisão por parte do Ministério do Ambiente (e da Direcção Geral de Veterinária) sobre a transposição desta para a legislação nacional.


Sobre a seca e as necrófagas

A reportagem menciona um efeito negativo da seca nas populações destas aves, o que não tem qualquer fundamento científico. A haver algum efeito, este poderá, em hipótese, ser precisamente o contrário. A seca pode provocar uma mortalidade mais elevada em herbívoros domésticos ou silvestres, o que poderá aumentar a disponibilidade alimentar dos abutres.

É extremamente importante dizer que os abutres NÃO ESTÃO A MORRER À FOME. As populações de aves silvestres têm oscilações anuais consideráveis e muitos factores influenciam o seu sucesso reprodutor e a sua sobrevivência (disponibilidade alimentar, perturbação, clima, etc). Nestas populações, o primeiro ano de vida das aves é o mais crítico, registando-se SEMPRE uma mortalidade natural bastante elevada, quer no ninho, quer numa fase posterior, quando as crias iniciam a fase de dispersão e busca de alimento. É muito difícil avaliar um ano isoladamente e concluir que uma população está a morrer à fome. As entidades que efectuam o seguimento anual destas aves recolhem dados sobre o número de casais nidificantes e sobre o número de crias voadoras (o vôo da cria determina o sucesso de um casal). Os dados são analisados em séries de anos (5, 10 anos, 20 anos, etc), que permitem observar tendências na população. E são essas tendências que indicam o estado de conservação de uma determinada espécie.

A situação actual das aves necrófagas

As populações de Grifo têm de facto AUMENTADO nos últimos anos (dados da ATN referentes ao número de casais nidificantes no vale do Côa). O Abutre-negro, que estava extinto como nidificante em Portugal, voltou a nidificar de forma natural. São poucos casais ainda, mas mostram que é possível recuperar estas espécies, trabalhando ao nível dos habitats e aumentando a tranquilidade de áreas importantes para estas aves. No vale do Côa, a população de Britango tem-se mantido estável nos últimos anos, e os restos de talho colocados no campo de alimentação da Faia Brava não são mais do que um SUPLEMENTO, já que esta espécie é também caçadora e tem uma dieta extremamente diversificada.
Estas são aves com elevado estatuto de conservação, NO ENTANTO, o nosso país tem um papel importante na sua salvaguarda e deve continuar a trabalhar arduamente para a sua conservação.

Mesmo que com uma pequena ajuda de medidas de excepção e pontuais como os alimentadores de abutres, os dados de estudos científicos e do seguimento anual destas populações que é levado a cabo por associações e pelo Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade apontam para uma situação para já estável no nosso país.


A ATN e a conservação das aves necrófagas

Finalmente, a Associação Transumância e Natureza vem apresentar a sua disponibilidade total para prestar mais esclarecimentos, de forma a permitir que a população seja infomada de forma mais detalhada sobre a importância destas espécies e sobre as medidas concretas que são implementadas no terreno para a sua conservação.

Na página web da ATN podem encontrar alguns trabalhos de investigação sobre o Britango da autoria de João Godinho e Eduardo Realinho (Universidade de Aveiro) e o relatório anual sobre a situação das aves rupícolas na Faia Brava - vale do Côa.

Na Faia Brava existe um campo de alimentação de aves necrófagas, que funciona de Março a Agosto - período de presença do Britango no nosso país. Nele são colocados restos de talho (oferecidos pelos supermercados locais) e, pontualmente, carcaças de equinos, asininos e animais silvestres vítimas de atropelamentos. Este campo de alimentação é gerido para a conservação do Britango no vale do Côa e presentemente é alvo de um estudo científico que estuda o seu impacto sobre o Britango e outras espécies necrófagas da Faia Brava. Apesar de ser uma medida de conservação válida, aplicada em muitos países e que apenas fornece um pequeno suplemento alimentar a esta espécie, não deixa de ser uma forma artificial de conservar uma população. Por isso, a ATN acredita que é importante estudar de forma continua este e outro tipo de medidas e ver o seu impacto real na natureza.

Para além do alimentador, a ATN realiza o seguimento anual da época de reprodução de todas as aves rupícolas da ZPE do vale do Côa e na Faia Brava, e efectua uma vigilância apertada de todas as actividades humanas na Faia Brava. A tranquilidade das aves é uma das medidas mais eficazes para a sua conservação, para além da sensibilização da população local.

De forma a financiar o funcionamento do alimentador e apoiar o trabalho de investigação dos estudantes da Universidade de Aveiro, a ATN construiu um abrigo de observação/fotografia no interior da vedações, onde é possível observar a alimentação das aves a 10 metros de distância.