quarta-feira, 21 de junho de 2017

Contributo da Associação Transumância e Natureza para uma nova política florestal


Face aos trágicos acontecimentos, a ATN quer, antes de mais, exprimir a sua solidariedade para com os familiares das vítimas de Pedrógão Grande e com a população da área afetada.
 
Foto de Hugo Sousa Marques
Trata-se de um drama de proporções excecionais, no entanto, infelizmente, os fogos florestais estivais são uma problemática crónica no nosso país, que, para além de afetar regiões já fustigadas pelos dilemas sociais (êxodo rural, desemprego e outros), ano após ano, traduz-se numa diminuição da riqueza florestal, no empobrecimento dos solos e, consequentemente, na perda da biodiversidade. 
 
A ATN já sofreu bastante com incêndios de grandes proporções que devastaram as áreas que nos propomos a proteger. Ao longo dos anos fomos aperfeiçoando a nossa capacidade para mitigar as condições que permitem estes acontecimentos. 
 
Foto de Juan Carlos Muñoz
Com base na nossa experiência direta, ao longo dos anos, e considerando a complexidade social e territorial dos fogos, campanhas de Vigilância ativa, trabalho colaborativo na gestão da floresta e fomento de redes de contactos para a vigilância, dão resultados positivos na deteção e combate rápido de ignições.   

Estas, combinadas com ações de prevenção através da silvicultura preventiva, do pastoreio extensivo com grandes herbívoros em estado semisselvagem, da diversificação do coberto florestal, da promoção da descontinuidade do mosaico agroflorestal, da melhoria das linhas de água e do aumento da capacidade de retenção de água na paisagem, - que podem ser executados com recursos proporcionalmente reduzidos-, aumentam a resiliência e diminuem o risco e severidade dos incêndios. 
 
Consideramos que nesta altura são mais importantes os contributos das pessoas envolvidas diretamente nas dinâmicas das zonas rurais, que vivem e trabalham todos os dias nesta realidade, do que considerações teóricas distantes, onde não há contacto nem consciência concreta das situações. É fundamental, para além da presença ativa nos locais sensíveis, uma reflexão profunda sobre as causas que levaram a este desastre, nomeadamente os cobertos monoculturais contínuos de espécies pirófilas (no caso, o pinheiro e o eucalipto) e a renovação das políticas até agora aplicadas, para que as mesmas sejam realmente eficazes. 
 
Foto de Juan Carlos Muñoz
Nesse sentido, identificamos a necessidade de uma nova política florestal que invista numa floresta diversificada, resiliente ao fogo e caracterizada por espécies autóctones, disponibilizando recursos e meios para um ordenamento de território ativo; para a profissionalização e especialização dos principais atores envolvidos no combate direto e para o trabalho de proximidade contínuo com as comunidades locais. 


Foto de Hugo Sousa Marques